Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar
Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração
A canção de Tom Jobim, feita em 1965, chamava-se “Zíngaro” – porque Tom, vivendo nos Estados Unidos, sentia-se como um cigano -, e já havia sido gravada no LP A Certain Mr. Jobim, com a participação do arranjador alemão Claus Ogerman. Tom passou a Chico diversas músicas desse álbum, e a primeira letra que saiu foi “Retrato em branco e preto”.
Nos primórdios da parceria, estimulada por Vinicius de Moraes, Tom pouco palpitava, o que viria a acontecer com muita freqüência quando o tempo e a intimidade permitiram. Chico atribui a benevolência e a tolerância iniciais ao paternalismo do maestro, que queria dar uma forcinha ao jovem letrista. Mesmo assim houve discussões.
Quando o Quarteto em Cy estava para gravar a canção, Chico decidiu mudar a expressão “peito tão marcado” por “peito carregado”, e explicou ao parceiro que “tão” havia sido uma muleta para completar as sílabas da canção. A alteração foi aceita, mas logo depois o maestro telefonava pedindo que mantivesse a versão original, porque “peito carregado” tinha também a conotação de tosse. Chico cedeu.
Em outra ocasião Tom teria dito a Chico que ninguém fala: “retrato em branco e preto”, e que a expressão correta seria “preto e branco”. Ao que Chico teria respondido: “Então tá. Fica assim: ‘Vou colecionar mais um tamanco/outro retrato em preto e branco’”. Diante de uma tamancada tão convincente, Tom entregou os pontos.
Extraído do livro “Chico Buarque – Histórias de Canções“
Tags: Chico Buarque, História da Música Brasileira, Histórias de Canções
Colecionar mais um tamanco
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